O trunfo é Ouros
Escrito por Delfina   
02-Set-2008

Durante imenso tempo andei à procura de um livro, Estava esgotado. Nas Bibliotecas não existia. Alguém o encontrou por mim (www.letralivre.com).

Estou a falar do
“A Guerra da Mina
e
Os Mineiros da Panasqueira”

Um livro escrito por dois filhos da região e um deles filho de Mineiro. Ambos jornalistas de profissão, Daniel Reis e Fernando Paulouro e editado, pela “A Regra do Jogo” no ano de 1979.

Valeu a pena a procura e a espera. Nele são contadas, na primeira pessoa, as histórias e as vidas da nossa gente. Histórias que medeiam os anos 20 e Julho de 1978.

Grata estou, enquanto filha, neta e bisneta de mineiros, a quem, com dedicação e penso que posso dizê-lo, com amor, escreveu o livro. Em boa hora o fizeram. Com este livro impediram que experiência de vida dos homens de Dornelas, Sobral, Casegas; Bogas, S. Jorge da Beira… se escoassem pelas calendas do esquecimento.

Não resisto a transcrever uma das histórias.

O Livro, na primeira parte, está escrito da seguinte forma: os autores fazem a apresentação do entrevistado e depois a história é contada na primeira pessoa. Aqui vai:

“Trunfo é ouros

António Marcelino Covita. Nasceu em S. Jorge da Beira, há 57 anos. Tem 40 de Mina: os últimos doze a cortar travessas para a linha férrea dos vagões de minério. Declarada a silicose, foi-lhe baixado o salário e colocado no exterior. A pensão não lhe chegaria para viver. Por isso trabalha, sempre convicto que há de continuar a ver os mineiros superar as antigas humilhações. Entre dois copos, no Clube, falou-nos dos anos 30 e 40 e das greves: «Ganhámo-las todas: as greves quando são bem feitas, a gente ganha-as todas».

Ando na Mina há quarenta anos: já cá morreu um irmão meu com silicose. Deve por aí ter trabalhado uns doze ou treze anos

Comecei em trinta e dois, tinha nove anos. Era pincho: acarretava aço para dentro da Mina, brocas para os martelos pequenos, e ganhava três e quinhentos por dia e uns puxões de orelhas. Se eles puxavam as orelhas? Então não puxavam! E bem.

Andei de carreiro, marteleiro durante 25 anos, tive todas as profissões na Companhia. Só vigilante é que não: mas eu nunca fui dos que oferecem presuntos e nessa altura era preciso.

Isto agora, pelo menos no respeito para connosco, está um pouco melhor. O pagamento também já é mais conforme. E não se come tanto pó. Isto vai. Mas se considerarmos o serviço mineiro, ainda não está bem. Um homem quando para ali entra não sabe se sai de lá vivo ou morto.

De três e quinhentos fui aumentado para sete escudos. Depois nove, já era mineiro. Quando peguei no martelo treze.

Hoje também já não falam para os trabalhadores como falavam naquela altura. Mas os mineiros também mudaram muito. Naqueles tempos casavam-se, chegavam aos trinta sem ver o comboio. E aqueles homens que havia, antigos, que pegavam num saco, metiam lá dentro um bocado de presunto e uma broa e toca a andar, trinta quilómetros a pé para ir à Covilhã, ou para virem trabalhar, das aldeias para aqui! È ver se agora alguém vai a pé. É o vais! Vai-se de camioneta e anda-se aquilo em vinte minutos.

Isto era tudo muito atrasado. Só cá havia pinheiros. Como nos pagavam mais um bocadinho do que aí, por essas terras, a gente tinha que se calar. Se não era despedido e não tinha outro sítio para ir trabalhar. Só se fosse roubar. Hoje não. Não querem? Vai-se para outro lado.

Antigamente vínhamos para aqui garotos, com oito e nove anos. O pessoal quando assentava praça já ia cheio de silicose. Agora não entra ninguém na Mina com menos de dezoito anos. Lá dentro também já se trabalha com botas, fato de oleado, luvas e capacete. Antigamente não.

Eu saí de dentro da Mina com quarenta e cinco anos. Já há doze que ando fora. Quando trabalhava lá dentro cheguei a ganhar quarenta e sete escudos. Depois cortaram-me a jorna para trinta. Como já não podia trabalhar lá dentro, carregado de silicose, passaram-me para fora e cortaram-me o ordenado. Agora já não podem fazer isso, já não podem cortar.

Antes do 25 de Abril isto era uma porcaria. Por isso emigrou tudo. Chegaram cá a trabalhar setecentas pessoas e depressa ficaram reduzidas a meia dúzia. Emigrou tudo e então foram buscar os caboverdianos. Os de cá foram ver de vida. Eu tenho cinco no Canadá. Trabalhavam aqui, também, mas como isto não dava, abalaram.”(..)

 

Assisti cá a tudo: participei cá em três greves, duas antes e esta depois do 25 de Abril.
A primeira foi a do carboreto. Nós é que comprávamos o carboreto à nossa conta, para os gasómetros. Vinha da fábrica de Canas de Senhorim e vendiam-no-lo aqui. Os gasómetros também se cá compravam.
Um belo dia toda a gente disse que não trabalhava enquanto a Companhia não pagasse o carboreto. Cada um foi para as suas terras. Andou por lá o engenheiro e mais um director com falinhas mansas:
- Então, não vamos trabalhar?
Nós que estávamos a jogar as cartas, lá nas tabernas, nem pio. Alguns foram levados pela Pide, no Porto. Vieram de lá mais mortos que vivos. Um era o Alfredo Araújo, de S. Jorge, chamavam-no por alcunha o Carriço. Outro era de Casegas, o António Alípio. O pessoal era rijo e quando eles foram presos disse:
- Enquanto não vierem os nossos companheiros nós não vamos trabalhar.
Isto parou tudo. Só se foi trabalhar quando deram ordens para a Companhia dar o carboreto. Os presos levaram lá porrada na Pide que foi o fim do mundo.
Também houve greve para aumentar a jorna de dezoito para vinte escudos. Até veio a Guarda de Castelo. Veio a da Covilhã. Veio a do Fundão. Daqui para cima, para a Panasqueira, estava tudo cheio de guardas. Cá pelas minhas contas, e se não estou em erro, isto aconteceu entre quarenta e sete e cinquenta e um.
Andámos nesta guerra alguns quatro dias, E também andaram pelas terras:
- Venham trabalhar! Nós temos lá gasómetros, nem é preciso trazerem os vossos!
Mas nós nem troco lhe dávamos:
- Joga: trunfo é ouros!
Foi lindo: ninguém entrou para a Mina. Fomos para debaixo da árvore, de olho aberto a ver se alguém entrava. Já se sabia que se uns entravam, entravam os outros. Se não ficavam todos, Ninguém entrou e fomo-nos embora, até aumentarem a jorna.
Então essa é que era boa: quebrava-se lá a greve por causa de dois ou três que não queriam, porque tinham medo?
Quando foi da greve dos seis dias, depois do 25 de Abril, também foram seis dias que ninguém entrou.
Qual foi a mais bonita destas greves todas? Em a gente as ganhando são bonitas todas. Ganhámo-las todas: não perdemos a primeira. As greves quando são bem feitas, a gente ganha sempre.
Tenho as marcas desta maldita Mina no corpo. Já cá cantam quarenta anos no «volfro», os últimos doze fora da Mina. E duas coisas eu quero dizer aos mais novos, aos que pagam e aos que trabalham. O pessoal que trabalha lá dentro devia ganhar sempre mais do que aquele que sempre trabalhou cá fora. E também os mineiros que trabalharam um certo tempo lá dentro deviam reformar-se mais cedo, que mais não fosse, aos cinquenta anos.”

Este o testemunho do nosso conterrâneo António Marcelino Covita e inserto no livro já referenciado.

Seja o primeiro a comentar este artigo no nosso Fórum