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Romance de António Castanheira, escrito em 1963 PDF Imprimir e-mail
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Escrito por Suporte   
02-Set-2008
Texto retirado dos Arquivos da Mailing List de S. Jorge da Beira. Enviado a 15 de Jul de 2003 pelo Tó Reis
QUOTE:

Caros Amigos.
Tal como prometi aqui transcrevo o Romance de António Castanheira, escrito em 1963 por António Paulouro.
Leiam com atenção, e reparem na coragem dos Homens de São Jorge.
Eram estas histórias que José Saramago também devia conhecer, tal como quem fez a página da Câmara. A esta última encarrego-me eu de a transmitir.
Não esqueçamos José Júnior e investiguemos toda a história.
Por agora deixo esta:
Romance de António Castanheira
"Não, eu não venho acusar ninguém, Os senhores puseram cá no jornal algumas coisas sobre os mineiros e falaram direito. Mas não passaram da galeria geral.
Ora é preciso ir lá dentro, andar lá semanas, meses, anos, para poder dizer como aquilo é. Eu? Chamo- me António Carlos Vaz e sou da Póvoa da Atalaia, Bem, na Mina era conhecido por Velhinho mas nunca me ralei com isso. Tenho trinta e nove anos. Na Mina, doze. Marteleiro de 1ª. Venho aqui porque quero pôr um anúncio da minha vida a ver se alguém dá providências. Do seguro não recebo nem um cisco e da caixa a mesma coisa. E olhem que já não têm conto as passadas que dei. Não, sangue pela boca ainda não deitei, a verdade é a verdade. Mas quando o trabalho é reforçado sinto o peito que parece um fole. Sim, pior, há, lá isso há. Mas não quer dizer que eu não tenha direito. Olhem, nem é preciso ir muito longe: o António Castanheira teve um companheiro morto nos braços, mais de quatro horas, no cimo dum buraco escuro com cinquenta e cinco metros de altura. Nem um anunciozinho pequenino... Pois foi no dia 21 de Dezembro, lembro-me bem. Ano?
Deixem ver... 1954".

"O ti' Manel Duarte Vaz e o António Castanheira foram mandados entivar uma chaminé abandonada. Chaminé, sim. É um furo que a gente abre de baixo para cima, um metro e oitenta de comprido por um e vinte de largura. Altura, a que é precisa. Aquela era a D4 poente, tinha sessenta metros, sem saída para a superfície.. Um buraco daqueles, escuro como o diabo, é coisa de respeito. Eram ambos entivadores de 1ª. Eu explico: entivador é o que segura o terreno. Com
tábuas e escoras põe um tecto de pedras soltas tão seguro como um salão. Ofício ruim, digo e repito. E quando se trata de chaminés então o caso é sério. Um pequeno descuido e aí vem um homem a esmigalhar-se cá no fundo. Vida dum raio...".

"Desculpem. A gente em começando a falar da Mina nunca mais acaba. Pois ia eu dizendo que o ti Manel e o António começaram a escalada. Trezentos degraus a pique, cravados na rocha. Só para subir aquilo é preciso ser homem. E ninguém vê, ninguém dá palmas... Iam eles por ali acima quando se apagou um gasómetro.
Não fizeram caso. Depois apagou-se o outro, mas como isso às vezes acontecia continuaram, no escuro. Quando lá chegavam ao cimo o ti Manel começou a sentir-se mal e o companheiro, o António, teve que se agarrar com alma aos degraus e com a cabeça é com os ombros ajudou-o a sentar-se na prancha. Naquela altura e naquelas condições foi um trabalho a preceito..."

"As pranchas são postas ao correr e é onde os entivadores trabalham, mesmo no alto. Quarenta centímetros de largura, de um lado e de outro. Cada homem trabalha sobre essa tábua de dois palmos. Ao meio uma abertura a todo o
comprimento e também com quarenta de largo".

"O António Castanheira era um rapaz valente. Tinha trinta e dois anos, estava na força da vida. Aguentou o ti Manel e sentou-se na outra prancha, abraçados, até que aquilo passasse. É o passas... Cada vez pior. Apalpou-lhe o coração e sentiu-o a bater tão devagarinho que logo futurou desgraça. Gritou. Nada. Bem podia ele gritar... No fundo daquele buraco escuro, enquanto não viesse o vigilante, ninguém o ouvia. Continuou a gritar. O coração do companheiro batia
cada vez mais devagarinho. Foi então que sentiu na boca um gosto adocicado e reparou que estava tonto. Era o gás, o "carbone". Acumulara-se ali porque a chaminé não tinha saída. Só havia uma salvação: deixar cair o outro e encostar a
cara à parede até que viessem socorros. Mas não sei se os senhores sabem que num ofício daqueles um homem não pode apenas contar consigo. Ou é fixe aos camaradas ou não presta. Cada um deve estar sempre disposto a defender a vida dos outros porque só assim defende a sua. Foi o que o António Castanheira pensou. A honra de um homem vale mais do que tudo. E se esse homem é mineiro, se está habituado a viver nove horas por dia debaixo da terra, pode cá fora ser um traste mas lá dentro, para os companheiros, é um cristal".

"Obra de meia hora ou três quartos de hora depois o vigilante ouviu-o e deu o alarme. Bem, nas Minas há muito gajo que não vale um pó de tabaco. Mas quando se trata de acudir não faltam homens de verdade. Veio gente. Logo um começou a subir mas quando notou o cheiro a gás, desistiu. Entretanto o coração do Manuel já mal se notava, até que parou de todo. Diz o António Castanheira que quando sentiu na sua cara a cara do companheiro a relaxar e viu que ele tinha morrido teve ideia de o deixar cair e salvar-se. Mas foi uma ideia má. Um homem que é homem não deixa cair o amigo, nem depois de morto. E o António Castanheira é um homem".

"Outro mineiro tentou subir e não foi capaz. E outro, e outros. Ao todo, nove. Assim se passaram quatro horas. O António, tonto, sem força nos braços mas a segurar o companheiro. A gente olhava para cima e nada via, e ele mal nos via a
nós. Via as luzes dos gasómetros a mexerem-se e depois de três horas passadas naquele preparo perdeu a esperança. Porque aquilo - não sei se já disse; se disse, os senhores hão-de desculpar - aquilo durou quatro horas! Quatro horas em
que o António Castanheira viveu e morreu em cada minuto. Mas olhe que aqueles que estavam cá em baixo, se por um lado sentiam orgulho de verem um camarada a aguentar-se assim, por outro enchiam-se de raiva por não poderem acudir. Vida
dum raio...".

"Eu disse que nove desistiram, não disse? Pois foi. Mas o décimo chegou lá. Se digo o nome dele? Claro que digo... Uma coisa tão bonita e nunca ninguém botou isto no jornal. Foi o Ernesto Alves Abrantes, de S. Jorge da Beira. Corajoso até
mais não. Chegou lá, passou uma corda ao cinto de segurança do António e deitou o Manuel Vaz na prancha. Outro homem chegou: Alfredo Nunes, também de S. Jorge da Beira. Bem, nesse tempo ainda a terra se chamava Cebola e havia até quem dissesse que eram "homens de cebola". Lérias... Nunca vi pessoal mais valente,
nem mais fixe ao camarada. Estes dois bem o provaram. Estão em Angola e Deus queira que não sejam mineiros. O António amarrado, desceu e só depois foram tirar o Manuel Vaz. Foi o cabo das trabalhos para o descer. Estava já rígido, tiveram que lhe partir alguns ossos. O António entretanto foi para o Hospital.
Dois ou três dias depois estava fino".

"No dia 30 do mesmo mês, depois dos parabéns de toda a gente e ser elogiado por grandes e pequenos, o António Castanheira recebeu uma carta que diz assim:

Exmº Sr. António da Costa Castanheira.

Amigo e Senhor. Foi com grande satisfação que a Direcção da Companhia tomou conhecimento do seu comportamento quando, no alto da chaminé D4W-R6, tentou salvar, com risco da própria vida, o seu: inditoso camarada. Como muito apreciou o seu espírito de abnegação e camaradagem, aproveita esta oportunidade para o louvar, pedindo ao mesmo tempo que aceite como prova do seu muito reconhecimento a importância inclusa que esta Companhia achou por bem conceder-lhe.

Fazendo votos porque mantenha sempre o aprumo moral que naquela ocasião demonstrou, subscrevemo-nos, com consideração e estima. De V. Sª.
Atenciosamente. Beralt Tin & Wolfram, Ltd. .

Com esta carta vinham duzentos e cinquenta escudos. Nos arquivos da Companhia o caso ficou arrumado. Esquecido. Mas os homens da Mina, aqueles que são a carne e o sangue daquela empresa não esquecem o que se passou em 21 de Dezembro de 1954.
Se falam nisso? Nisso e em muitas coisas mais. Porque muitos mineiros são analfabetos, e a maioria dos homens rudes, há quem os julgue duros de coração. Enganam-se. Que lhes falta muito para serem mineiros como os de outros países, segundo ouço dizer, lá isso falta. Mas que sentem, e lembram as coisas boas e más, e que sabem quem são os que ganharam e os que perderam neste jogo de vida e de morte, é verdade que sabem. Às vezes, nas noites longas de Inverno, à lareira, os mais velhos contam o que eram os mineiros de outro tempo, como
morreram alguns, e outros apodreceram ainda vivos... O António Castanheira é muitas vezes lembrado e com razão.

"É que um passo destes, os senhores devem concordar, foi uma coisa bonita. Um mineiro, quer seja entivador, quer ande agarrado ao martelo como eu andei, tem brio no seu ofício. E com uma carta daquelas na arca um homem sente-se seguro.
No entanto... Quando chegou a hora de empontar os mais velhos o António Castanheira não escapou. Bem, desde 1959 que não era entivador, desde que foi ao Tribunal do Trabalho e lá disseram que aquela falta de ar, a rela no peito que
ele sentia era silicose. A companhia passou-o cá para fora, para os serviços moderados, e cortou-lhe sete mil reis. Vinte e quatro escudos foi quanto passou a ganhar porque a jorna dele nunca foi mais de trinta e um. Vinte e quatro e a
pensão do seguro. Mesmo assim sentia-se feliz porque um pobre com pouco se contenta. Mas no dia 15 de Novembro de 1962 "toma lá 867$60 e arranja-te como puderes..."

"Os senhores desculpem mas já me esquecia de falar na pensão do seguro. Se eu sei tão bem a vida dele? Como ele sabe a minha. Passámos muitos dias juntos, somos quase da mesma idade, continuamos como se fôssemos irmãos. Não temos segredos um para o outro. Se ele bebe? Às vezes, lá isso é verdade. Não que abuse, não. Mas é como muitos outros, esse é um dos grandes males, talvez o maior dos mineiros. Fracos como são, qualquer pinga a mais os derruba. Sim, as condições de trabalho melhoraram. Hoje a vida de mineiro é diferente. Mas será boa? Não merecerá o mineiro uma féria melhor do que qualquer outro trabalhador? Pois como ia dizendo, não que o António Castanheira andasse para aí aos tombos. Nunca. Gostava de uma rodada em sociedade mas agora nem isso, e já lhes digo porquê".

"Ele entrou para a Mina aos dez anos. Aos doze, fugiu. Voltou aos quinze e ficou até ir para a tropa. Regressou em 1947 e esteve lá até que o mandaram embora.
Vinte e dois anos e meio, dezasseis a descontar para a Caixa. Sete pessoas a seu cargo: a mulher, a mãe, cinco filhos pequenos. Os dois mais velhos já não estão em casa: o António tem 19 anos e é operário em Lisboa; a Maria de Fátima tem 15 e é criada de servir".

"São oito pessoas que vivem em dois quartos pequenos, onde cozinham e comem também. Oitenta escudos de renda. Oito bocas a comer e uma reforma: 130 escudos por mês! Por isso, queira ou não, possa ou não possa, o António Castanheira tem de trabalhar no que aparece. Anda agora, nas obras da Praça Nova. O esforço é grande mas são 26$00 por dia. E do que vive aquela gente".

"Eu não estou a dizer mais do que é, palavra de honra. Amanhã trago cá o António Castanheira e os senhores hão-de ver ao que fica reduzido um mineiro quando chega aos quarenta anos".

"Não quero abusar da paciência dos senhores e por isso me vou embora. Mas falei do António Castanheira porque ontem tivemos uma grande conversa e ele à despedida disse uma coisa que me tem andado nos ouvidos: "Olha, amigo, quando
entrei para a Mina dava serventia ao Manuel Antunes e ao António Rodrigues, que eram das Portas do Soito. Ambos morreram aos quarenta e dois anos. O Aníbal dos Santos, que era das Meãs, morreu aos 45. De então para cá bem sabes quantos acabaram entre os 40 e os 45. Eu não tenho outro remédio senão esperar a minha
vez. Sabes como vivo. No Inverno passado só não morremos à fome porque o meu Zé pedia esmola no Fundão. Mas um dia a Polícia levou-mo a casa e disse que o mandaria para o Albergue de Castelo Branco se ele voltasse a pedir. Vê tu ao que chega um homem depois de tantos anos de trabalho duro. Agora vou-me aguentando nas obras da Praça - sabe Deus com que sacrifício! - mas no Inverno? Quando o Ernesto me salvou recebi os parabéns de toda a gente. Pois digo-te foi o maior desastre da minha vida. Se tivesse caído com o Manel Vaz tinha morrido de urna
vez e não andava para aqui a morrer aos bocados e a ter de ver os filhos pedir esmola...".

António Paulouro

NOTA DE REDACÇÃO

Este relato foi escrito em Agosto de 1963 e não pôde então ser publicado. O António Castanheira continuou a trabalhar na construção civil, apesar das hemoptises que de vez em quando sofria. Em Março de 1964 deu baixa e passou a
receber 12$64. Entretanto "teve a sorte" de ser novamente inspeccionado e os peritos do Tribunal atribuíram-lhe uma desvalorização de trinta por cento. A pensão subiu a 195$00 por mês. Aquela família - os mesmo oito, porque um filhito
que entretanto nascera morrera com poucos dias - dispunha de 19$14 diários.

O António Castanheira piorava e a mulher dirigiu-se ao Tribunal do Trabalho da Covilhã a pedir que "abrissem o processo" e vissem que as queixas do seu homem não eram fingidas. Pediu que lhe fizessem um exame a sério já que os peritos, por terem mais que fazer, não lhe tinham dado atenção.

Mas o processo não pôde ser "aberto". O que abriram, sim, foi a sepultura do António Castanheira, que na tarde do último domingo ficou a descansar no cemitério do Fundão. Estava, por sinal, uma bela tarde de sol, aquele sol que o António Castanheira, a trabalhar debaixo da terra, tão pouco gozou. Tinha quarenta e um anos e era um velho...
E os filhos?
E os outros Castanheiras, centenas de homens que vomitam sangue e passam fome e esperam a morte?
Quem se lembra deles?
E as leis?
E a nossa consciência?
Um dia esta geração será julgada. Que dirão os nossos filhos quando derem balanço ao que fizemos e verificarem que esta foi uma hora de total covardia?
1965
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