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Outras Localidades
Enterrados vivos PDF Imprimir e-mail
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Escrito por Suporte   
08-Set-2008

texto retirado do blog CAMINHEIROS DE CASEGAS


A PROPÓSITO DA ROTA DOS MINEIROS

"Enterrados vivos", os mineiros da Panasqueira, em grande parte oriundos do nosso concelho, heróis do trabalho, autênticas toupeiras humanas, furaram e esventraram a serra do Chiqueiro e o Cabeço do Pião, território situado na zona limítrofe dos concelhos da Pampilhosa da Serra, Covilhã e Fundão.

A expressão “enterrados vivos”, referindo-se aos mineiros, ouvi-a, por volta dos meus dez anos, no início dos anos 60, num sermão do padre Hermano de Almeida, falecido há poucos anos em Fajão, então pároco de Unhais-o-Velho. Ficou-me indelevelmente gravada na memória. Porque o meu pai era mineiro, certamente. A consequência foi a minha recusa em seguir o destino que, à partida, estava marcado para os filhos dos mineiros: ser mineiro. Essa era uma “tradição” nas famílias das Meãs.

As entranhas da montanha albergavam milhões em volfrâmio, cobre e estanho. Estão agora ao sol, os milhões de toneladas de resíduos da exploração de mais de cem anos na Panasqueira, Barroca Grande e Rio, os três núcleos das Minas. Mas há quem diga que o "monte" do dinheiro que dali saiu ainda é maior.

As Minas da Panasqueira tiveram um grande impacto económico e social (e cultural) nos concelhos da Pampilhosa da Serra, Covilhã e Fundão. Esse impacto foi maior nas povoações mais próximas das Minas da Panasqueira. As que mais influência sentiram foram, no concelho da Covilhã as das freguesias de Cebola (S. Jorge da Beira) Aldeia de S. Francisco, Casegas, Ourondo, Paul, Erada, no concelho do Fundão, Silvares, Barroca, Janeiro de Cima e Bogas e no concelho da Pampilhosa, Dornelas e Meãs, e outras da freguesia de Unhais-o-Velho, ou mesmo, Fajão e Janeiro de Baixo, já que a sua área de influência ia até mais longe. Das referidas povoações, quase todos os trabalhadores deslocavam-se diariamente. Faziam à volta de 20 quilómetros diários, ou mais, ida e volta. Por vezes, no regresso, ainda iam "dar uma mão" no amanho das terras, ajudando nas épocas das sementeiras ou colheitas quando o trabalho da mulher e dos filhos não era suficiente. Os de terras mais longínquas deslocavam-se semanalmente. Ao sábado regressavam à aldeia, faziam as suas tarefas agrícolas, assistiam à missa do Domingo e na segunda-feira de madrugada lá regressavam à Mina. Outros fixaram-se definitivamente na zona de exploração, constituindo as novas povoações da Panasqueira, Rio e Barroca Grande com muitos outros que vinham do Alentejo, Trás-os-Montes e Minho e que por cá ficaram.
A Mina permitiu manter muita população com um emprego bastante estável nas povoações mais próximas e, com uma certa complementaridade da pequena agricultura, algum desenvolvimento económico-social e um nível de vida aceitável para uma zona rural como a nossa. Mas isso tinha um preço elevado: as condições de trabalho eram terríveis. A somar à própria natureza da tarefa, ao local onde era exercida e aos terríveis perigos de acidentes, havia a doença profisssional: a silicose, provocada pela inalação do pó da pedra. Esta doença é incurável e consiste numa lesão permanente do pulmão provocada pela sílica da rocha, presente nas poeiras. Mais tarde ou mais cedo, dependendo de vários factores, a morte era uma sina precoce. Muito raros eram os mineiros que ultrapassavam os cinquenta anos. Nestas aldeias, as mulheres ficavam viúvas muito cedo. No concelho da Covilhã, S. Jorge da Beira era conhecida como a terra das viúvas. Viuvez e orfandade com o seu cortejo de miséria, mitigada pela solidariedade e pelo trabalho de todos nas pequenas courelas de magra terra. Mal dava para a "côdea". Logo que possível, a emigração para Lisboa ou para o estrangeiro. Ou, por atávica herança, a mina, outra vez.
O investimento da empresa concessionária das Minas na melhoria das condições de trabalho e segurança, pressionada pelos trabalhadores, sindicatos e, finalmente, pelas leis que foram sendo publicadas, permitiu alterar o panorama para melhor.
Logo após o 25 de Abril, quando a reivindicação e a força dos trabalhadores eram maiores, os mineiros da Panasqueira tinham dos melhores salários do operariado a nível nacional e eram uma influente força social. Nessa altura a exploração mineira estava em alta. A decadência começou nos anos oitenta, quando as crises cíclicas dos mercados e a desvalorização do volfrâmio, pela concorrência internacional, foram reduzindo as efectivos e enfraquecendo a exploração mineira. Hoje, as Minas ainda laboram. Têm cerca de duzentos mineiros, mas a crise é uma ameaça permanente. Mitigada pelas guerras que no mundo se vão dando.

Ao longo de todo o século XX, a marca das Minas exerceu-se na vida desta região. Foram muitas, as gentes que se movimentaram na sua órbita.

Recordemos algumas épocas e factos: na Segunda Guerra Mundial a corrida ao volfrâmio levou milhares de pessoas à garimpagem e ao contrabando e algumas enriqueceram. Muitos dos que tentaram o “quilo” e o “salt' e pilha” continuaram pobres, mas viveram a ilusão. Outros fizeram bons negócios e enriqueceram, fornecendo à mina, as madeiras para segurança do terreno no trabalho subterrâneo. Outros ainda, viveram do comércio e de pequenas indústrias que a existência das Minas proporcionava. E nas freguesias de S. Jorge e Aldeia de S. Francisco muitos proprietários venderam à Beralt Tin os terrenos que viriam a constituir o Couto Mineiro.
Os concelhos limítrofes forneceram à Mina serviços, mão-de-obra, madeira e electricidade (a primeira linha de alta tensão - em 1942 - da central da Barragem de Santa Luzia, dirigia-se para a Panasqueira). Uma boa parte do progresso destas terras e a menor desertificação desta região deve-se à existência da Minas da Panasqueira.
Existem muitas pequenas histórias de vida de gentes mineiras, marcadas e condicionadas pela mina.

Este pequeno texto é uma homenagem aos homens e mulheres que deram um grande contributo, pelo seu trabalho e pelo seu heroísmo à vida serrana e são, tal como os carvoeiros, os pastores, os ganhões, os lavradores e tantos outros, de vidas ignoradas e simples, o substrato humano da história desta região mineira.

 

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Mineiros da Póvoa da Raposeira PDF Imprimir e-mail
Classificação: / 2
Escrito por Suporte   
05-Set-2008

Texto retirado da página serras online da rúbrica Minas da Panasqueira em Regresso ao Passado

 

"Ó rapaz arriba arriba se não podes correr anda, ainda hoje vais atravessar a serra para a outra banda".

A serra para a outra banda, consistia naquele tempo, em subirem a encosta sobranceira à Póvoa da Raposeira, chegarem até ao cume da montanha e por entre carreiros e veredas, com a sacola dos mantimentos aos ombros, descerem depois a caminho das Minas da Panasqueira.

Todos nós nos lembramos ainda, de ouvir-mos cantar aquela cantiguinha, a qual passou ao longo dos anos de geração em geração, daqueles que enterrados vivos nas Minas da Panasqueira, quantas vezes com o sacrifício das próprias vidas, calcorrearam os caminhos daqueles montes, à procura do sustento para as suas famílias.
Das primeira e segunda gerações de mineiros, já não é possível obter relatos na primeira pessoa, sobre o que foi a vida de tantos e tantos serranos naquele complexo mineiro.

Eu e outros da minha idade fomos uns felizardos!... Bem cedo os nossos Pais dali saíram, depois de experimentarem a agrura daquele trabalho, procurando noutras paragens o melhor para os seus filhos.
Porém, tantos e tantos outros por ali foram ficando, souberam o quanto foi difícil a vida durante dezenas de anos, ganhando para as sopas (pão que o diabo amassou), os trinta dinheiros da sobrevivência. Arrastaram com eles para a mina os próprios filhos, alguns ainda em idade escolar.

Não foi por acaso, que nos jornais regionais daquela época o lápis azul cortou tantas e tantas notícias, sobre aquela vida dura mas também as mortes prematuras, muito especialmente, quando se tratava de mortes por acidentes no interior da mina ou devidas à silicose.

Aquelas minas foram apesar de tudo, fonte de rendimento para muitos serranos, porquanto na altura era apenas a única fonte empregadora da nossa região. Dali saiu e continua a sair tanta riqueza para o País, mas vão-se esquecendo os poderes públicos do desenvolvimento da região.

Enquanto é tempo, é exactamente o testemunho de dois desses “jovens”, agora com mais de sessenta anos, à altura mineiros de profissão, que iremos dar à estampa o que foram aqueles tempos das suas vidas, quer no interior quer no exterior da mina.

Tantas vezes já lhe ouvimos contar as estórias das suas vidas, num misto de tristeza e de alegria, mas também de algum entusiasmo, que quase sabemos de cor o que foram as suas aventuras e desventuras, mas é sempre gratificante ouvi-los em cada vez que isso nos é possível.

Assim, proximamente se nos derem guarida, iremos trazer à estampa os depoimentos do Virgílio Martins e do Joaquim Martins (Valente), ambos mineiros, nascidos e criados naquele sempre acolhedor lugarejo, chamado Póvoa da Raposeira.

 

 
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